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sábado, 16 de fevereiro de 2013

Pesquisas em Bilinguismo e Aquisição de L2 - UNIFESP

Aos alunos e interessados que escreveram no blog perguntando sobre cursos e grupos de estudo, informo que iniciarei um grupo de estudos "Pesquisas em Bilinguismo e Aquisição de Língua Dois" (PeBALD) na Universidade Federal de São Paulo em 01 de março de 2013. Os encontros devem ocorrer sempre na 1a sexta de todo mês às 18h. Os interessados em participar, por favor escrevam para mim no email marcello.unifesp@gmail.com

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sintaxe - aquisição de linguagem

(Este texto é cortesia de minha amiga Cida Caltabiano, que dá a mesma disciplina que eu na faculdade e compilou essas informações sobre as diferentes teorias de aquisição)


Principais teorias/abordagens da Aquisição da Linguagem[1]

1. O empirismo: A teoria behaviorista

Para a corrente behaviorista ou ambientalista (final da década de 1950), a aprendizagem da linguagem seria fator de exposição ao meio e decorrente de mecanismos comportamentais como estímulo – resposta - reforço.
Para Skinner[2], aprender a língua materna não seria diferente, em essência, da aquisição de outras habilidades e comportamentos, como andar de bicicleta, dançar, já que ao longo do tempo, haveria um acúmulo de comportamentos verbais.

Imagine a situação de uma criança que vê a mãe e quer sair do berço (estímulo). Ela começa a chorar (resposta). Caso a mãe a retire do berço, ela está reforçando positivamente o comportamento da criança, isto é, a criança aprende que para sair do berço deve chorar. Se, por outro lado a mãe não atender a criança (reforço negativo), esta aprenderá que não é chorando que vai conseguir sair de lá.

Para Skinner, o mesmo princípio é usado para o aprendizado da língua. Imagine que a criança vê a mamadeira (estímulo) e diz papá. Se ela conseguir com isso que lhe dêem a mamadeira, será reforçada positivamente, aprenderá que quando quiser comida deve dizer papá.

Ø É assim que aprendermos nossa língua materna? Em que situações linguísticas e/ou não-linguisticas a visão de Skinner poderia ser aceita?

2. O racionalismo: Noam Chomsky[3] e a hipótese do inatismo

Como produzimos frases que nunca foram proferidas?
Como entendemos frases cuja referência não se encontra no contexto em que são produzidas?
Como as crianças aprendem a falar tão rapidamente?

Para Chomsky e seguidores

-> Existe uma Gramática Universal, que é uma matriz biológica responsável pela grande semelhança entre as línguas e pela rapidez com que as crianças aprendem a falar.
-> O meio cumpriria o papel de acionar o dispositivo responsável pela aquisição da língua.
-> As crianças aprendem a falar rapidamente porque, na verdade, já nascem dotadas de um dispositivo inato de aquisição de linguagem.
-> A criança fica exposta a uma fala fragmentada, repleta de frases incompletas, mas é capaz de internalizar num tempo muito curto a gramática de uma língua devido a este dispositivo inato, que aciona o conhecimento lingüístico prévio geneticamente herdado.
Na idade certa, o dispositivo será acionado e ela começará a falar.
As crianças criam palavras, fazem analogias, falam frases inéditas ainda muito cedo.
Além disso, com 4 ou 5 anos já utilizam praticamente todas as estruturas gramaticais de sua língua.

Os gerativistas

Questionam a forma como as crianças adquirem os elementos lingüísticos.
Para eles, existem
o As categorias lexicais – que são os substantivos, os verbos, os adjetivos e as preposições;
o As categorias funcionais – que são os instrumentos gramaticais das línguas, como os artigos, os pronomes, as conjunções e os advérbios, além das categorias gramaticais de número, gênero, caso, pessoa, tempo, etc.

Hipóteses para explicar a aquisição desses elementos:

Hipótese maturacional da aquisição da linguagem.[4]
o Existem diferentes fases para a aquisição de linguagem e a passagem de uma fase para outra é determinada pela maturação do organismo.
o Existe uma ordem na configuração da GU que determina que as categorias lexicais surjam antes das categorias funcionais.
o Para Radford, todas as crianças passam pelas seguintes fases de aquisição de linguagem:

Fase pré-lingüística
0 a 12 meses
Gestos e balbucios
Fase de uma palavra
de 12 a 18 meses
Sentenças com apenas 1 palavra
Fase multivocabular inicial
(fase lexical ou temático-lexical)
de 18 a 24 meses
Desenvolvimento dos sistemas lexicais
Nesta fase surgem as flexões nominais e a fixação dos parâmetros de ordem das palavras.

Fase multivocabular tardia
(fase funcional)
de 24 a 30 meses
Presença dos sistemas funcionais.
Essa fase só é atingida quando a criança dominou totalmente os sistemas lexicais.

Ex. Fala de uma menina brasileira com menos de 2 anos

a) Neném ta mexendo mimédio de vovô.
b) Casa de poquinho.
c) Panta de vovó.
d) Coocá na cama.
e) Carro é minha.
f) Mamãe abe, mamãe. Abiu. Esse abe não, abe não?




3. O cognitivismo

O cognitivismo vincula a linguagem à cognição, i.e, a aquisição e o desenvolvimento da linguagem são processos derivados do desenvolvimento do raciocínio na criança.

Piaget [5], assim como Vygotsky
· Não está interessado na aquisição da linguagem, mas na relação linguagem/pensamento.
· O sujeito constrói estruturas (conhecimento) com base na experiência com o mundo físico, ao interagir e ao reagir biologicamente a ele, no momento dessa interação.
· Não basta que a criança esteja apenas “exposta” à interação social, ela deve também estar “pronta”, no que se refere à maturação, desenvolver o(s) estágios necessário(s) para compreender o que a sociedade tem para lhe transmitir:

. sensório-motor, de 0 a 18/24 meses, que precede a linguagem;
. pré-operatório, de 1ano e meio-2 anos a 7-8 anos, fase das representações, dos símbolos;
. operatório-concreto, de 7-8 a 11-12 anos, estágio da construção da lógica;
. operatório-formal, de 11-12 anos em diante, fase em que a criança raciocina, deduz, etc.

-> Há pesquisas que apontam para a antecipação da entrada no pensamento operatório por crianças bilíngues.

A partir de uma perspectiva de Piaget, pode ser levantada a hipótese de que a exposição à língua e a culturas diferentes na 1ª infância beneficiaria o desenvolvimento da criança. Crianças bilíngües adquirem mais cedo a distinção entre significante e significado, uma vez que desde cedo têm a noção de que um objeto chama-se de determinada forma em uma língua, mas de outra forma em outra língua. Assim estariam sendo estimuladas a perceber a relatividade dos conceitos e a colocarem-se no lugar do outro para considerar qual língua é inteligível a ele

-> Para Piaget, são 2 as categorias de linguagem:
egocêntrica – as conversações das crianças são egocêntricas ou centralizadas (fala consigo mesma), não o objetivo de comunicar nem levam em consideração a presença de um interlocutor, quando é o caso, pois não há função social nelas.
e socializada – nessa fase a criança passa a interagir, por meio de perguntas, respostas, ameaças, etc.

-> Apesar de mencionar esse aspecto social, Piaget não levou em conta o papel do outro nesse processo de aquisição/desenvolvimento da linguagem infantil, pois para ele a maturação (estágios) acontece de forma individual.

4. (Socio)Interacionismo

Tal teoria baseia-se na interação verbal, no diálogo da criança com o adulto.
Nesse sentido, o desenvolvimento da linguagem e do pensamento tem origens sociais, externas, nas trocas comunicativas entre os dois interlocutores.

Para Vygotsky [6]
todo conhecimento se constrói socialmente, pela aprendizagem nas relações com os outros.
O adulto tem um papel fundamental no processo de aquisição da linguagem, funcionando enquanto regulador/medidor de todas as informações que as crianças recebem do meio.
Essas informações são sempre intermediadas pelos que as cercam, e uma vez recebidas, são reelaboradas num tipo de linguagem interna, individual.
É desse modo que a criança se desenvolve na interação com o outro e aprende com ele (adulto) aquilo que em breve ela será capaz de fazer sozinha.

A aquisição da habilidade depende da instrução dada pelo adulto no momento em que a criança se encontra na chamada Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), i.e, uma fase de transição entre aquilo que ela é capaz de fazer sozinha e o que ainda não é capaz de realizar por si só, mas pode fazê-lo com o auxilio de alguém mais experiente, como a mãe, o professor, outros adultos, colegas mais velhos, etc.

Para Vygotsky, a criança também deve passar por um processo de desenvolvimento das operações mentais e, para tanto, propõe fases.

Os primeiros sons do bebê são dissociados do pensamento; essa união só acontece por volta dos 2 anos, qdo a fala assume uma função simbólica e organizadora do pensamento. É nessa idade tb. que as estruturas construídas externamente pela criança são internalizadas em representações mentais. A fala, resultante da internalização da ação e do diálogo, servirá de suporte para que a criança comece a controlar o ambiente e o próprio comportamento.

Piaget e Vygotsky – insistiram no aspecto cognitivo como fator determinante para o desenvolvimento da linguagem da criança.
Diferença –
Para Piaget -> trata-se de um processo individual, i.e., a criança passaria sozinha pelo processo de internalização;
Para Vygotksy -> a fala (egocêntrica) da criança é essencialmente social, depende da reação das outras pessoas e tende a se internalizar.

Atividade: Sobre o filme O Enigma de Kaspar Hauser. Responda as perguntas abaixo:
O Enigma de Kaspar Hauser (1974) é uma das obras-primas do cineasta alemão Werner Herzog. O nome original do filme é: Jeder Für Sich Und Gott Gegen Alle
a) Que relações vc. pode fazer entre as discussões sobre aquisição da linguagem e o filme. Comente sobre o comportamento lingüístico e social de Kaspar.
b) Comente cenas em que se destaca o ensino da linguagem, de comportamentos e atitudes. Que ´teoria´ embasaria/ estaria subjacente a essas cenas escolhidas/(re)lembradas por você?

[1] Textos de referência: a) Santos, R. A aquisição da linguagem. In: FIORIN, José Luiz (org.) Introdução à Lingüística. I. Objetos teóricos. São Paulo: Editora Cortez, 2002.
b) Del Ré, Alessandra. A pesquisa em Aquisição da Linguagem: teoria e prática. In ____ (org.) Aquisição da linguagem: uma abordagem psicolingüística. São Paulo: Editora Contexto.
c) Martelotta, M. E. et alli. Aquisição de Linguagem. In: _____Manual de Lingüística. São Paulo: Editora Contexto, 2008.
d) Scarpa, Ester M. Aquisição da Linguagem. In: Mussalin & Bentes. Introdução à Lingüística. Domínios e Fronteiras. Vol.2. São Paulo: Cortez Editora, 2001.

[2] Burrhus Frederic Skinner (1904-1990, Pensilvânia, EUA). Graduou-se em Psicologia em 1930. Trabalhou na Universidade de Minesota e quando ingressou em Harvard influenciou toda uma geração de estudantes. Principal obra Comportamento Verbal, 1957.
[3] Avram Noam Chomsky (nascido na Filadélfia, EUA, em1928) é professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, EUA .
[4] Radford 1993. Syntactic Theory and the Acquisition of English Syntax.
[5] Jean Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e faleceu em Genebra em 1980.
[6] Lev Semionovitch Vygotsky (1896, Orsha-1934, Moscou) foi um psicólogo bielo-russo, descoberto nos meios acadêmicos ocidentais depois de sua morte, causada por tuberculose, aos 37 anos. (variações:Vigotski, Vygotski ou Vigotsky)